Veículo.

Desde que lá estava, ele não havia encontrado nenhuma das praias de beleza selvagem e natureza intocada de que tanto se ouvia falar quando aquela região era mencionada, tudo o que tinha visto eram praias urbanizadas, com boa infra-estrutura para o turismo e sempre cheias de gente. Não que ele não estivesse gostando do que o ambiente descontraído e com serviços eficientes proporcionava, mas quando escolheu seu destino de férias, não foram exatamente estes os atrativos que o fizeram decidir por aquele lugar. Era seu último dia de viagem e ele mais uma vez dirigia seu carro em direção à praia. Apesar da boa estrutura da cidade, sua grande quantidade de ruas e avenidas asfaltadas não conseguia dar vazão ao fluxo de carros que se formava com o número de visitantes naquela época do ano. O trânsito parado e o sol de verão tornavam aquelas viagens verdadeiros desafios para a tecnologia automobilística, sentia-se realizado com o conforto do ar condicionado e das poltronas de última geração do seu automóvel, que estavam vencendo com larga vantagem os incômodos das jornadas diárias do hotel até a areia. Pensou que aquele lugar tivesse mais a oferecer, e foram estes pensamentos que o haviam trazido e o mantiveram ali por todos aqueles dias, mesmo com a movimentação das pessoas no hotel e dos carros nas ruas o levando sempre para aquelas praias bem diferentes das que esperava encontrar.

Não sabia qual era o motivo, mas naquele dia o trânsito na avenida estava ainda mais complicado. Muitos dos carros estavam saindo dela por uma rua lateral e ele automaticamente os seguiu. Foi quando percebeu que desde que lá estava, só fazia seguir o fluxo, estava sempre indo onde a maioria das pessoas do hotel recomendava e seguindo o maior movimento das ruas, era como se todos soubessem o que fazer e somente ele não. Chegando à esquina onde os carros dobravam para retomar a direção anterior por uma via menos congestionada, ele seguiu em frente, resolveu não acompanhar mais ninguém. À medida que seguia em seu novo caminho, as ruas foram mudando de aspecto e a cidade perdendo aquela beleza urbanizada que os habituais caminhos dos dias anteriores o fizeram acreditar que ela possuía. Foi um choque, mas ao mesmo tempo era uma grande descoberta e ele queria saber o que mais havia para se descobrir. As casas foram rareando e uma paisagem árida mostrava a ele que a arborização da área onde estava freqüentando não era a verdadeira natureza do lugar. O asfalto já havia acabado há algum tempo, mas só agora o caminho não era mais tão plano e estável quanto no começo do trecho sem pavimentação. Por um instante pensou em retornar, mas lembrou-se que seu carro era um off-road e estava na hora desta característica deixar de ser somente um item de ostentação. Pela primeira vez, compreendeu que um veículo é somente um meio de transporte, e como tal só servia para poder levá-lo aos destinos onde desejasse chegar.

Seguiu por terrenos em que nem imaginou um dia passar, até que chegou a um ponto em que seu carro não podia mais conduzi-lo. Sentiu-se culpado, por um instante acreditou que estar perdido em um lugar ermo e estranho, com a pintura do carro danificada pelos arbustos dos caminhos estreitos em que se meteu, era um castigo por ter se aventurado em ir muito além do que era recomendado aos turistas. Contrariado por perceber que teria de abrir mão do ar condicionado e submeter-se ao calor escaldante que parecia fazer lá fora, desceu do carro para verificar como seria possível fazer o retorno que o levaria de volta à civilização. Foi quando sentiu a brisa marinha e surpreendeu-se com a sensação agradável que ela trazia, mesmo com todo o calor. Observou que o mar não estava tão distante dali. Trancou o carro e seguiu caminhando, faria valer a pena ter chegado até aquele ponto e sabia que só conseguiria fazê-lo se fosse até o fim daquela jornada. Atravessou a mata que estava em sua frente, o vento indicava que o mar deveria estar naquela direção. A travessia foi mais longa do que pensou que fosse, mas quando se deu conta, estava no topo das falésias mais inacreditavelmente lindas que já havia visto. As cores e os recortes eram de excepcional beleza e seus vermelhos ficavam ainda mais destacados em contraste com o branco da faixa de areia, o azul do céu e o verde do mar. Não via ninguém em toda a extensão de praia que avistava, ficou tão maravilhado que arrumou forças e desceu praticamente correndo até a areia. Tirou as roupas e nadou nu, como se tivesse acabado de nascer em um mundo recém criado para que ele desfrutasse.

Depois de muito aproveitar do seu próprio paraíso, teve de ir embora. As falésias eram tão maravilhosas quanto difíceis de serem escaladas, mas estava tão extasiado com sua experiência, que nem se queixou da subida ou do sol que insistia em lhe queimar. Espinhou-se todo ao atravessar a mata de volta, e mesmo assim chegou ao carro satisfeito, enfim sua viagem havia valido à pena. Lembrou-se de se vestir e manobrou com dificuldade tomando seu caminho de volta. Quando percebeu que pelo hábito ligaria o ar condicionado, decidiu por abrir as janelas e deixar que o vento do lugar o refrescasse. Os sons que vinham de fora do carro, os cheiros e a brisa o estimulavam de maneira surpreendente, nunca imaginou que a interação com os caminhos percorridos pudesse ser tão recompensadora quanto interagir com os destinos. Lamentou o fato de ter deixado a câmera fotográfica no carro, não teria fotos daquele pedaço do céu na terra para mostrar às pessoas. Mas pensando melhor, concluiu que elas jamais conseguiriam compartilhar dos seus momentos no paraíso. Aos olhos dos outros, aquele lugar não seria mais do que outra bela praia, mesmo que ele relatasse em detalhes tudo o que viveu lá. Sabia que não havia descoberto um pedaço do céu na terra, mas uma maneira diferente de experimentar o dia, que o permitiu viver como se estivesse nele. Chegou no hotel com um ar de felicidade notado por todos, como tinham sentido sua falta na praia em que haviam combinado se encontrar, alguém insinuou que se ele não esteve no encontro e estava com aquela cara, só podia ter passado o dia com alguém muito especial. Ele sorriu calado, enquanto seguia em direção ao seu quarto. Seria muito complexo tentar explicar um processo tão intenso e pessoal quanto o que tinha vivido naquele dia.

About these ads

~ por Sérgio G. Alves em 19/02/2009.

6 Respostas to “Veículo.”

  1. Fantástico! As melhores experiências da vida são realizadas quando estamos sós com nós mesmos!
    Ao ler o texto, me imaginei em Floripa, lugar chamado de Paraíso, mas com um trânsito infernal. Porém, se desviarmos das rotas tradicionais, certamente deve haver lugares assim por lá.

  2. Perfeito! Temos que viver o Agora! O caminho é o maia legal de tudo!

    Ps: Floripa não dá! No Nordeste cê acha facinho…

  3. Tem de achar no ônibus, indo pro trabalho.

  4. Vai soar brega mas, como tia Clarice já tinha dito, o mundo exterior é um detalhe. O que importa é o que acontece aqui dentro.

  5. Bingo, João!

  6. O melhor do caminho é se perder!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: