Ouro Preto 08 – Julho, 2006.

•11/03/2009 • 4 Comentários

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Latência.

•09/03/2009 • 6 Comentários

Como seria mais complicado justificar sua ausência, do que fazer um esforço e ir ao bar, onde comemorariam o aniversário de um colega; lá estava ele em uma grande mesa, cheia de bebida e conversa jogada fora. Passou boa parte do tempo tentando mostrar aos demais, que aquilo era uma comemoração e não uma reunião de trabalho. Pior do que estar em um bar, ambiente que há tempos vinha evitando, era ter assuntos profissionais continuados para muito além do expediente. Tentou em vão, introduzir outros assuntos, mas como estavam todos, inclusive o aniversariante, entusiasmados com as questões da empresa, desistiu de conversar e concentrou-se na música que o pianista insistia em tocar, apesar do barulho de conversas e copos que ecoavam por todo o recinto. Não fosse o fato dele ter sido ridicularizado pelos colegas por beber tão pouco, teriam achado que ele estava embriagado no momento em que se levantou e aplaudiu de forma veemente o pianista. Além da apreciação da música estar inviabilizada pelo barulho do bar, pelo pouco que se conseguia ouvir, sua performance estava longe de merecer tamanho entusiasmo.

Ele havia vindo do interior à capital no começo de sua vida adulta, achando que seria fácil se estabelecer como músico. Lá em sua cidade, a informação que tinha, era de que a capital possuía uma vida noturna diversificada, com muitos bares e casas de espetáculos. Percebeu logo que a informação era verdadeira, mas incompleta, suas fontes não mencionaram o fato de que havia um número excessivo de artistas, mesmo para a vasta cena musical da cidade. Com sorte, encontrou um piano bar que lhe abriu espaço, mas o que ganhava como pianista não era suficiente para que sobrevivesse na metrópole, foi obrigado a também arrumar um emprego diurno em uma grande empresa. Existia uma acirrada competição entre os músicos da noite e ele sentiu desde o começo, que não seria fácil competir com os mais antigos, por conta de sua experiência e superioridade ao que sua bagagem do interior permitia que fosse. O que era excelente para uma cidade do tamanho da sua, era mediano para a capital, então, apostava em um repertório diferenciado, na tentativa de manter seu trabalho no piano bar. Mas mesmo assim, via as chances para sua música diminuírem a cada noite, ao mesmo tempo em que a cada dia, via novas oportunidades de crescimento na empresa. Já andava acreditando que as noites mal dormidas por conta de sua música, estavam comprometendo sua ascensão profissional, quando soube que revezaria as noites ao piano com um outro músico. Foi a gota d’água, desistiu do bar e da música, prometendo jamais tocar em um piano novamente e dedicar-se exclusivamente a sua carreira na empresa. E agora, a mesma empresa que o motivou a abandonar a cena musical da cidade, o trouxera de volta a um bar com música ao vivo.

No momento em que deixou de prestar atenção à conversa de seus colegas e passou a ouvir a música, percebeu que o pianista começava a tocar um de seus temas preferidos, daqueles raros que ele usava como diferencial em seu passado ao piano. Ele nunca tinha ouvido um outro músico incluí-lo em seu repertório e apesar de má execução do pianista, talvez pela falta de vontade em tocar para um público tão desatento e barulhento, foi impossível não se lembrar da maneira que interpretava aquela música. O que ele ouvia não era o que estava sendo tocado no bar, mas sim a lembrança de como ele costumava tocar. Sem as limitações físicas do piano, aquela foi uma de suas execuções mais perfeitas, então no final, não poderia ter tido outra reação senão aplaudir entusiasmadamente o que ouviu. Como ele nunca havia falado nada sobre sua relação com a música, seus colegas não entenderam a paixão do seu aplauso e na verdade, nem o músico entendeu. Disfarçou naturalidade e pediu mais uma bebida, era preciso beber um pouco mais, na tentativa de melhor assimilar a nova descoberta. Estava difícil digerir o fato de que mesmo sendo negligenciada por décadas, sua musicalidade ainda existisse de maneira tão intensa, a ponto da simples lembrança de sua interpretação da música executada, se fazer ouvir por sobre todo o barulho do bar. Era como se ao dobrar uma esquina, tivesse encontrado alguém que há muito, fora dado como morto. Não conseguia decidir se o melhor era comemorar a vida reencontrada, ou fazer valer a morte que vinha sendo administrada por todo aquele tempo.

Maio, 2005.

•08/03/2009 • 5 Comentários

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Imagem e semelhança.

•05/03/2009 • 8 Comentários

As bicicletas sempre passavam correndo na calçada em frente a sua casa. Ele morava na rua que dava acesso ao caminho pelo meio do mato, que levava a um riacho, por onde os meninos adoravam pedalar. Sempre que ouvia a algazarra que faziam, corria até o portão e sonhava com o dia em que seu pai lhe daria uma bicicleta, para que pudesse ir junto com os outros meninos. Como seus pais já o haviam levado até o riacho, ele conhecia o caminho e ficava imaginando como deveria ser pedalar pelas ruas, em alta velocidade, até chegar aos limites do bairro, para depois atravessar os caminhos de terra, em meio à vegetação, até o banho em suas águas frias. Seu pai havia notado o fascínio que aquelas máquinas quase voadoras exerciam sobre o menino e quis surpreendê-lo, deixou uma bicicleta novinha em frente à porta de seu quarto, para que ele a encontrasse na manhã do seu aniversário. O menino não acreditou na pintura sem nenhum arranhão, nos pneus pretinhos, com cheiro de borracha nova e nos cromados intactos daquela bicicleta que era só dele. Correu para agradecer ao pai, que ficou imensamente emocionado em saber que estava proporcionando tantas novas possibilidades de diversão e alegria ao filho. Mal tomou seu café da manhã e foi andar de bicicleta na calçada, com um pouco de sorte os meninos passariam por ali e ele poderia seguir pela primeira vez, rumo a tão desejada aventura até o riacho. Eles passaram, e com aquela cumplicidade que só existe no universo dos meninos, o convidaram para que seguisse com o grupo. Ele olhou para cada uma das outras bicicletas e viu o quanto estavam sujas e danificadas, não querendo que a dele ficasse igual, recusou ao convite. Alegou que gostaria muito de ir, mas que seu pai não o deixava pedalar fora da cidade. Os meninos seguiram e ele gostou de saber que assim, sua bicicleta continuaria tão linda quanto estava na primeira visão que teve dela. Gostou mais ainda de perceber que ninguém questionou sua recusa, já que a responsabilidade por ela ficou atribuída ao seu pai.

No ano seguinte, quando seus professores o quiseram representando a escola em uma competição de matemática, sentiu a pressão que sofreria e não hesitou em dizer que seu pai não concordava que ele tomasse parte em disputas. Como não se sentia à vontade em estar sem roupas em meio a outras pessoas, sempre dizia que seu pai não permitia que ele freqüentasse clubes, academias, colônias de férias ou qualquer outra atividade que incluísse vestiários. Evitava que lhe pedissem qualquer coisa emprestada, argumentando que seu pai ameaçava não lhe dar mais nada, se viesse a saber que alguma de suas coisas estivesse danificada ou não estivesse em casa, com ele. Quando percebeu que os colegas começariam a convidá-lo para festas, sentiu-se inseguro. Não sabia beber, dançar e nem mesmo se portar em tais ocasiões, então, deu um jeito e espalhou pela escola a informação de que seu pai não gostava que saísse. Viveu assim até a vida adulta, quando pensou em tatuar seu braço. Como tatuagens são para sempre, teria de ser muito criterioso na escolha do desenho, dai ter pensado em tatuar o nome de seu pai. Seria uma homenagem ao homem que lhe deu as diretrizes que mantiveram sua vida sem nenhum tipo de desconforto ou insegurança, e que o havia livrado do peso de tantas responsabilidades. Embora tivesse gostado da idéia da tatuagem tributo, acabou decidindo por não fazê-la, tinha certeza de que seu pai jamais admitiria uma tatuagem. Como há algum tempo, ele já não era o homem feliz que conhecera em seus tempos de criança, seria melhor poupá-lo de mais este desgosto. Sublimar um desejo seu em nome da vontade do pai, seria sua verdadeira grande homenagem.

Ele nunca causou qualquer tipo de problema aos pais. Caseiro, estudioso e ligado à família, todos o viam como um filho exemplar. E era por isto que seu pai jamais manifestara as razões de seu entristecimento, pois seria complicado dizer a um filho como ele, que ele era o motivo de sua notória tristeza. Era óbvio que ele era um excelente filho, mas era muito difícil para alguém tão cheio de vida quanto seu pai, ver seu único filho levar a vida de forma tão apática. Mesmo respeitando sua individualidade, seu pai o acompanhou de perto, esteve atento a cada passo que deu e não conseguia compreender como ele rejeitou cada oportunidade que teve para interagir com a vida. Sempre que pode, tentou proporcionar-lhe possibilidades de interação, mas ele nunca as aproveitou como esperava que fizesse. Ao contrário dele, que destruiu várias bicicletas de tanto usá-las, seu filho manteve uma quase sem uso, por toda sua vida. Nunca aproveitou completamente as boas escolas em que foi matriculado, estudava, mas jamais participou de qualquer atividade nelas, ou com seus colegas. Seu pai, além das fotos de festas e viagens com os amigos de escola, tinha várias medalhas e certificados das inúmeras atividades extracurriculares das quais participou. Em vez de chamar os amigos para brincar com os brinquedos que ganhava, como seu pai entendia que crianças deveriam fazer, sempre preferiu mantê-los intactos, como se fossem para ser contemplados e não para que se brincasse com eles. Agora mesmo, seu pai não se conformava em observar aquele jovem adulto, em meio às suas férias de verão, lendo no sofá desde a manhã. Lembrou-se que foi quando tinha a idade que ele tem hoje, em uma viagem de férias com alguns amigos, que fez a tatuagem que tinha na parte interna do seu braço. Tatuagem esta que nem nunca foi percebida, tamanho o distanciamento que ele criou entre os dois. De outra forma, ele não conseguiria criar a complexa fantasia de proibições, que sempre usou para orientar sua vida.

Baú, Bauzinho & Ana Chata – Fevereiro, 2009.

•03/03/2009 • 6 Comentários

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Espelho, espelho meu.

•01/03/2009 • 6 Comentários

Eram muitas as peças interessantes no antiquário, a cada sala que entravam, ela decidia por algum item, sem que ainda tivesse resolvido de fato por nenhum. Teria de ser um único objeto que desse um tom clássico e tradicional ao ambiente, mas que também dialogasse bem com as peças contemporâneas da decoração. Ele, por mais relutante que fosse a idéia de colocarem uma peça antiga na casa nova, teve de acatar a decisão da esposa e a acompanhava na loja. Apesar das muitas possibilidades, estava difícil encontrar algo que satisfizesse as exigências do casal, que parecia não entrar em acordo com relação ao que levar. Ela encontrou uma mesa chinesa, que cumpriria exatamente o papel atribuído a uma peça antiga em sua decoração. Mas antes que desse a palavra final, ele, ao ajeitar o cabelo em um espelho na parede, percebeu que se tratava de um espelho veneziano e ficou maravilhado. Não sabia que argumentos usaria para convencer a mulher a levar o espelho no lugar da mesinha, ainda mais que por discordar da compra da antiguidade, esteve calado até aquele momento. Mas o fato era que ele nunca havia se visto como era refletido por aquele espelho, tentou outros na mesma parede, mas nenhum mostrava uma imagem sua com tamanha propriedade. Precisava levar o espelho e não sabia como convencer sua esposa a fazê-lo. O vendedor, ao perceber seu interesse pela peça, aproximou-se dizendo que o espelho era catalogado e tinha grande valor no mercado de antiguidades, que além de uma bela peça decorativa, seria um ótimo investimento. Pronto, convenceria a mulher dizendo que já que investiriam em um objeto antigo, que fosse em um que tivesse seu valor reconhecido e que sendo assim, o espelho era a melhor opção. Mas ela não desistia da mesa, adorava o toque de tradição oriental que sua sala ganharia com ela. Perceberam o impasse e viram que o que deveria ser uma manhã prazerosa, em que escolheriam uma peça especial para a decoração de sua nova morada, estava quase acabando em discussão. Levaram os dois.

A sala realmente ficou perfeita com a mesa e o espelho ficou em um outro ambiente, mais reservado. Ela não gostou do espelho. Além de acreditar que espelhos antigos carregavam consigo as energias de seus donos anteriores, ainda tinha ficado com uma má impressão de como seu marido se relacionou com aquele em especial. Ele nem queria uma antiguidade e de repente fez questão do espelho, parecia que havia sido hipnotizado ou qualquer coisa do gênero. Para piorar, desde que o espelho fora fixado em sua casa, seu marido nem mais se penteava no banheiro, somente o fazia em frente a ele. Ela não podia afirmar nada com relação ao espelho, mas o fato é que sentia que ele tinha certos poderes sobre seu marido e o via como uma ameaça à sua casa e aos seus. Ele, por sua vez, concordava que o espelho tinha algo de diferente, algo que o fazia especial. Apesar do discurso sempre negativo de sua esposa, não conseguia ver como uma maldição, um objeto que o refletia de maneira tão particular. Era como se somente naquele espelho ele visse sua verdadeira face refletida. Tinha algo de assombroso no espelho, que parecia fazer com que ele conseguisse enxergar sua verdadeira essência, coisa que jamais havia experimentado. Ele nunca contou a ninguém, mas aquele era seu espelho mágico, sempre que precisava ver a verdade sobre si, parava em frente a ele e ele a mostrava com uma naturalidade que ele nem sequer supunha existir. Aquele seu reflexo, mesmo que só ele e seu espelho conhecessem, fazia com que se sentisse uma pessoa inteira e esta sensação de integridade, o tornava um homem mais tranqüilo e mais feliz. Por conta destas mudanças, sua mulher deixou de implicar tanto com as supostas mandingas do espelho, mesmo não tendo mudado de idéia com relação a ele.

Estava vendo fotografias de uma recepção realizada na empresa em que trabalhava, quando percebeu em uma das fotos, a mesma fisionomia que seu espelho mostrava. Voltou às fotos anteriores e nenhuma outra o mostrava como aquela, nem tampouco as seguintes. Levou a fotografia consigo e passou o dia analisando a imagem, na tentativa de compreender as semelhanças entre ela e o reflexo de seu espelho. Mostrou a fotografia a sua secretária e perguntou a ela o que via de diferente nele. Ela respondeu de imediato, que não havia nada de diferente nele, mas que as flores em tons suaves do quadro na parede de trás, emolduravam seu rosto na fotografia, de uma maneira que não estava acostumada a vê-lo. Pela primeira vez, ele pensou no espelho e não em seu reflexo, percebeu que por mais estilizado que fosse seu bisotado, eram flores. Então, a imagem que correspondia à sua essência, tal qual somente ele conhecia, era um reflexo seu em uma superfície de cristal ornamentada por uma infinidade de desenhos florais. Chegou em casa com um novo espelho, dizendo a esposa que ela sempre tivera razão com relação ao antigo, que tinha tido um insight no escritório e que daquele momento em diante, passaria a prestar mais atenção no sexto sentido atribuído às mulheres. Substituiu o espelho pelo novo, com linhas retas e moldura simples, mas guardou o antigo em seu armário. Mentiu, dizendo já ter conversado com o antiquário e que não era um momento propício para vendê-lo, perderiam muito dinheiro, mas que seria avisado de quando fazê-lo. Todos os dias, antes de sair de casa, se arrumava em frente ao espelho antigo, de dentro do armário. Sentia-se bem em ser aquele que via refletido, mas acreditava ser melhor que aquilo só existisse como um reflexo seu, que somente ele e seu espelho conhecessem sua verdadeira face. Ao sair, passava em frente ao novo espelho, aquele seu reflexo em um espelho com moldura reta de aço escovado, era a imagem que gostava que tivessem dele. Perdeu a integridade que adquiriu admitindo ser aquele que via no antigo espelho, mas ele acreditava que certa intranqüilidade e infelicidade eram mesmo parte dos atributos dos homens destes tempos atuais.

Ana Chata 01 – Fevereiro, 2009.

•26/02/2009 • 3 Comentários

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Sorria, você está sendo filmado.

•25/02/2009 • 6 Comentários

Em uma cidade pequena como a deles, as opções de lazer nos finais de semana eram a piscina do clube de dia e algum barzinho eleito como ponto de encontro da temporada, à noite. Normalmente os pares se formavam no barzinho e o curioso é que uma vez formados, deixavam de freqüentar o lugar. Se alguém passasse mais do que um final de semana sem aparecer, logo começavam a procurar quem mais estava ausente, uma tentativa de adivinhar quem estava saindo com quem. Era praticamente impossível manter os namoros em segredo, as suspeitas levantadas com a ausência no barzinho, eram facilmente confirmadas na saída do cinema local. Os namoros mal começavam e os casais já não queriam mais estar onde todos se encontravam, então iam ao cinema, a única opção de lazer com um pouco mais de privacidade na cidade. Com os dois não foi diferente, viram cada um dos filmes exibidos ao longo dos vários anos de namoro e noivado, mas com eles, o que era para ser somente um pretexto para ficar a sós, acabou se transformando em uma verdadeira paixão. Mesmo depois de casados, não perderam nenhuma estréia no cinema, até o nascimento do seu filho. Sair sem o bebê era uma operação complicada, então compraram um bom equipamento e começaram a ver os filmes em casa. O menino cresceu em frente a tela plana da TV e logo estava contagiado pela paixão dos pais, que ao perceberem seu interesse, passaram a selecionar o que viam para que o cinema funcionasse como ferramenta na educação do filho. Com a intenção de potencializar os efeitos dos exemplos vistos na tela, nunca disseram ao menino que aquilo era encenação e ele cresceu acreditando em tudo o que via.

No dia que estava com seus pais em um restaurante e um casal discutiu de forma dramática na mesa ao lado, ele não teve dúvidas, saiu à procura das câmeras. Se os filmes eram mesmo feitos da maneira que ele imaginava, com imagens reais que as câmeras de segurança, dos jornalistas e dos celulares captavam, aquele casal teria sua vida exibida no cinema depois daquela briga, então, se ele estivesse bem posicionado, apareceria em um filme que seria visto no mundo inteiro. Ele viveu acreditando que os filmes retratavam a realidade de alguns poucos privilegiados, que tinham a vida interessante o bastante para que fosse mostrada a todos. Acreditava ainda que fazendo da melhor maneira possível tudo o que era esperado que ele fizesse, ao menos em frente às câmeras, um dia juntariam os vídeos que seu pai sempre fazia dele, com as filmagens que eram feitas na escola, mais o que tinha sido registrado pelas câmeras que monitoravam as ruas e os shoppings e ele teria finalmente sua vida mostrada em um filme. Ficava triste por pensar que se isto ainda não tinha acontecido, era porque sua vida era desinteressante ou ele ainda não estava desempenhando seu papel da maneira esperada. Seus pais gostavam de convencê-lo da segunda hipótese, achavam que ela os ajudaria a mantê-lo motivado a ser um menino exemplar. Foi assim até o dia em que sem querer, apertou os botões do controle remoto e encontrou os extras do DVD. O disco trazia um documentário sobre a realização do filme e ele pode acompanhar a farsa por trás de todo o realismo que o filme exibia. Nos dias que se seguiram, não conseguiu pensar em mais nada a não ser em como fora enganado pelos filmes que viu na vida. Imaginou como cada uma das verdades que tanto haviam marcado sua vida, haviam sido forjadas em estúdios. Se até seus pais o haviam enganado com as mentiras que o cinema contava, não tinha mais em quem ou no que confiar.

O hábito ainda o levava ao cinema, mas a consciência que tinha adquirido não permitia a mesma interação de antes, o descrédito o impedia de se interessar pelas histórias que lhe eram apresentadas. Descobriu-se mais atento às interpretações dos atores e aos efeitos especiais, instrumentos que tornavam real a imaginação de quem havia concebido o filme, do que propriamente ao que ele contava. Na tentativa de se livrar dos anos em que viveu a ingenuidade de acreditar em tudo o que lhe mostravam, leu e viu qualquer coisa relacionada ao fazer cinema. À medida em que ele crescia, este interesse foi se tornando uma obsessão, seus estudos e pesquisas sobre os bastidores e técnicas da sétima arte foram se aprofundando, até que ele se viu transformado em uma autoridade no assunto. Mas nunca colocou seus conhecimentos a serviço da indústria cinematográfica. Se por um lado achava já haver mentiras demais sendo exibidas, por outro, não queria estragar a magia que estas exerciam sobre quem ainda acreditava nelas, então, não participava da produção de filmes e nem de documentários sobre como eram realizados. O encanto que os filmes tinham sobre ele, se acabou no momento em ele percebeu que existia um aparato técnico maior do que os filmes em si, e agora que já conhecia todos os mecanismos da indústria, esta máquina de fazer cinema também havia deixado de encantá-lo. Percebeu o quanto ainda era ingênuo, por acreditar que uma estrutura tão grandiosa como aquela, só existia para produzir farsas boas o bastante para que se pagassem para assisti-las. E assim como deixou de ver filmes com a simples óptica de um expectador, deixou de estudar os bastidores com a simples visão de um curioso por avanços tecnológicos. Estava interessado nas verdadeiras razões que haviam promovido um crescimento tão espetacular na tecnologia que permitia a criação de mentiras cada vez mais reais. Já sabia pela sua experiência que o processo não terminaria nestas novas descobertas, mas também já sabia que estas possibilidades futuras não deveriam desviar o foco de seus atuais estudos, da mesma maneira que ele não deveria se esquecer de tudo o que já havia aprendido, mesmo se acontecesse de vir a se encantar com algum novo filme assistido.

Maio, 2006.

•23/02/2009 • Deixe um comentário

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Veículo.

•19/02/2009 • 6 Comentários

Desde que lá estava, ele não havia encontrado nenhuma das praias de beleza selvagem e natureza intocada de que tanto se ouvia falar quando aquela região era mencionada, tudo o que tinha visto eram praias urbanizadas, com boa infra-estrutura para o turismo e sempre cheias de gente. Não que ele não estivesse gostando do que o ambiente descontraído e com serviços eficientes proporcionava, mas quando escolheu seu destino de férias, não foram exatamente estes os atrativos que o fizeram decidir por aquele lugar. Era seu último dia de viagem e ele mais uma vez dirigia seu carro em direção à praia. Apesar da boa estrutura da cidade, sua grande quantidade de ruas e avenidas asfaltadas não conseguia dar vazão ao fluxo de carros que se formava com o número de visitantes naquela época do ano. O trânsito parado e o sol de verão tornavam aquelas viagens verdadeiros desafios para a tecnologia automobilística, sentia-se realizado com o conforto do ar condicionado e das poltronas de última geração do seu automóvel, que estavam vencendo com larga vantagem os incômodos das jornadas diárias do hotel até a areia. Pensou que aquele lugar tivesse mais a oferecer, e foram estes pensamentos que o haviam trazido e o mantiveram ali por todos aqueles dias, mesmo com a movimentação das pessoas no hotel e dos carros nas ruas o levando sempre para aquelas praias bem diferentes das que esperava encontrar.

Não sabia qual era o motivo, mas naquele dia o trânsito na avenida estava ainda mais complicado. Muitos dos carros estavam saindo dela por uma rua lateral e ele automaticamente os seguiu. Foi quando percebeu que desde que lá estava, só fazia seguir o fluxo, estava sempre indo onde a maioria das pessoas do hotel recomendava e seguindo o maior movimento das ruas, era como se todos soubessem o que fazer e somente ele não. Chegando à esquina onde os carros dobravam para retomar a direção anterior por uma via menos congestionada, ele seguiu em frente, resolveu não acompanhar mais ninguém. À medida que seguia em seu novo caminho, as ruas foram mudando de aspecto e a cidade perdendo aquela beleza urbanizada que os habituais caminhos dos dias anteriores o fizeram acreditar que ela possuía. Foi um choque, mas ao mesmo tempo era uma grande descoberta e ele queria saber o que mais havia para se descobrir. As casas foram rareando e uma paisagem árida mostrava a ele que a arborização da área onde estava freqüentando não era a verdadeira natureza do lugar. O asfalto já havia acabado há algum tempo, mas só agora o caminho não era mais tão plano e estável quanto no começo do trecho sem pavimentação. Por um instante pensou em retornar, mas lembrou-se que seu carro era um off-road e estava na hora desta característica deixar de ser somente um item de ostentação. Pela primeira vez, compreendeu que um veículo é somente um meio de transporte, e como tal só servia para poder levá-lo aos destinos onde desejasse chegar.

Seguiu por terrenos em que nem imaginou um dia passar, até que chegou a um ponto em que seu carro não podia mais conduzi-lo. Sentiu-se culpado, por um instante acreditou que estar perdido em um lugar ermo e estranho, com a pintura do carro danificada pelos arbustos dos caminhos estreitos em que se meteu, era um castigo por ter se aventurado em ir muito além do que era recomendado aos turistas. Contrariado por perceber que teria de abrir mão do ar condicionado e submeter-se ao calor escaldante que parecia fazer lá fora, desceu do carro para verificar como seria possível fazer o retorno que o levaria de volta à civilização. Foi quando sentiu a brisa marinha e surpreendeu-se com a sensação agradável que ela trazia, mesmo com todo o calor. Observou que o mar não estava tão distante dali. Trancou o carro e seguiu caminhando, faria valer a pena ter chegado até aquele ponto e sabia que só conseguiria fazê-lo se fosse até o fim daquela jornada. Atravessou a mata que estava em sua frente, o vento indicava que o mar deveria estar naquela direção. A travessia foi mais longa do que pensou que fosse, mas quando se deu conta, estava no topo das falésias mais inacreditavelmente lindas que já havia visto. As cores e os recortes eram de excepcional beleza e seus vermelhos ficavam ainda mais destacados em contraste com o branco da faixa de areia, o azul do céu e o verde do mar. Não via ninguém em toda a extensão de praia que avistava, ficou tão maravilhado que arrumou forças e desceu praticamente correndo até a areia. Tirou as roupas e nadou nu, como se tivesse acabado de nascer em um mundo recém criado para que ele desfrutasse.

Depois de muito aproveitar do seu próprio paraíso, teve de ir embora. As falésias eram tão maravilhosas quanto difíceis de serem escaladas, mas estava tão extasiado com sua experiência, que nem se queixou da subida ou do sol que insistia em lhe queimar. Espinhou-se todo ao atravessar a mata de volta, e mesmo assim chegou ao carro satisfeito, enfim sua viagem havia valido à pena. Lembrou-se de se vestir e manobrou com dificuldade tomando seu caminho de volta. Quando percebeu que pelo hábito ligaria o ar condicionado, decidiu por abrir as janelas e deixar que o vento do lugar o refrescasse. Os sons que vinham de fora do carro, os cheiros e a brisa o estimulavam de maneira surpreendente, nunca imaginou que a interação com os caminhos percorridos pudesse ser tão recompensadora quanto interagir com os destinos. Lamentou o fato de ter deixado a câmera fotográfica no carro, não teria fotos daquele pedaço do céu na terra para mostrar às pessoas. Mas pensando melhor, concluiu que elas jamais conseguiriam compartilhar dos seus momentos no paraíso. Aos olhos dos outros, aquele lugar não seria mais do que outra bela praia, mesmo que ele relatasse em detalhes tudo o que viveu lá. Sabia que não havia descoberto um pedaço do céu na terra, mas uma maneira diferente de experimentar o dia, que o permitiu viver como se estivesse nele. Chegou no hotel com um ar de felicidade notado por todos, como tinham sentido sua falta na praia em que haviam combinado se encontrar, alguém insinuou que se ele não esteve no encontro e estava com aquela cara, só podia ter passado o dia com alguém muito especial. Ele sorriu calado, enquanto seguia em direção ao seu quarto. Seria muito complexo tentar explicar um processo tão intenso e pessoal quanto o que tinha vivido naquele dia.